sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Enjoy the Silence

Voltei a dar aulas, e voltei a vivenciar a realidade dos meus alunos.
Ela era violentada pelo namorado da mãe, que acusava o avô da menina para proteger o homem que amava...
Ele viu as duas irmãs serem assassinadas e depois terem o corpo incendiado...
Ele é o 6º ou 7º irmão, bom, sei que a mãe mesmo grávida do 8º filho ainda é espancada pelo marido e fugiu para um abrigo carregando as crianças com ela...
Ela é filha de pais separados e ao invés de atenção, ganha presentes de todos os lados para compensar a ausência, a mãe é muito jovem e se porta como irmã, a menina já é fútil e vulgar...
Ele tem surtos de violência, espanca todos a sua volta com crueldade, chegando a pisar nas crianças ao derruba-las, dizem que foi rejeitado pela mãe...
Ele enfiou uma caneta nas costas do outro e disse "não machucou, não saiu sangue"...
Ele e ela são deficientes mentais, todos nós sabemos, mas não podemos fazer nada sem autorização dos responsáveis, e eles já estão na 3ª série, sabe-se lá como...

Parei no farol no caminho da escola, já irritado por ter acordado cedo e mesmo assim estar atrasado, o relógio marcava 7:30 da manhã, o menino veio desde o primeiro carro da fila até o último deixando um saquinho de balas pendurado no retrovisor e dando uma para cada um dos motoristas, balas recheadas com um sorriso e um "bom dia!"

E mesmo assim, nós aqui somos capazes de nos deprimirmos mas, não temos coragem de abdicar da vida.
Reclamamos pelo fim de um relacionamento, pela falta de um relacionamento, pela falta de dinheiro, reclamamos até por estarmos vivos...
As vezes sinto ódio de mim mesmo por ter uma vida tão privilegiada em comparação com a deles, queria poder trocar a minha realidade com a deles, por não achar que eu mereça a que tenho e que eles não merecem a que tem.
Me sinto culpado de não sofrer, por ter sido abandonado pelo meu pai.
Paro para refletir um pouco e penso que toda vez que vou dormir, tiro toda a roupa, deito na minha cama e não escuto nada senão o silêncio...

Será que as vozes na cabeça deles permitem o silêncio?

Nossas vidas quando perturbada pelo menor dos males parece insuportável, porém ela é muito melhor que a de muitos que talvez mereçam mais que nós, porém não podemos trocá-las, portanto se não julgar-se digno da vida que tem, a atitude mais nobre a tomar, é deixa-la.

E é por isso que nas madrugadas em que sinto o meu corpo suar aquecido, pelas telhas abafadas do quarto, vou até a varanda rendendo-me a brisa fresca e contemplo o silêncio que brinda comigo a existência à deriva.

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